Porquê Repensar a Educação?

Em 1987, quando foi lançado o relatório O Nosso Futuro Comum (também conhecido por Relatório Brundlandt) já era apontada uma mudança na Educação como a única solução para o futuro da humanidade: “As mudanças nas atitudes humanas que clamamos dependem de uma vasta campanha de Educação, debate e participação pública. Esta campanha deve começar agora para que o progresso sustentável seja alcançado (1).”

Dizia-se que devia começar naquela altura, que era urgente, mas não começou. Em 2009, Karen Blincoe, que, naquele momento, dirigia o Schumacher College (instituição que os anfitriões frequentaram e que é inspiração deste encontro), apelava também para uma mudança na Educação e destacava a nossa responsabilidade relativa ao nosso futuro conjunto na Terra:

Vivemos no planeta uma época extraordinária. O que fizermos agora e como agirmos terá um efeito determinante na humanidade e em inúmeras outras espécies. Somos os administradores e responsáveis não apenas por nós mesmos, mas também, uns pelos outros, pelo ambiente e pelas gerações futuras. Se os estudantes tiverem um meio que lhes permita adquirir capacidades de “alfabetização em sustentabilidade”, eles poderão contribuir para um salto coletivo para a implementação de um futuro sustentável.”2

Blincoe, K. 2009. Re-educating the person. In: Stibbe, A. (Ed.) The Handbook of Sustainability Literacy. green books, Totnes

Também o Papa Francisco, em 2015, na Carta Encíclica Laudato Si referia a necessidade de uma nova Educação que ajudasse as pessoas a viver com o poder que hoje a humanidade tem: “O homem moderno não foi educado para o reto uso do poder, porque o imenso crescimento tecnológico não foi acompanhado por um desenvolvimento do ser humano, quanto à responsabilidade e aos valores da consciência (…) Neste sentido ele está nu e exposto frente ao seu próprio poder que continua a crescer, sem ter os instrumentos para o controlar.”(3) 

Também Martha Nussbaum, filósofa da Universidade de Harvard, referia a mesma necessidade e chamava à crise da Educação, a maior crise, aquela com maior impacto: “Estamos no meio de uma crise de enormes proporções e de grave significado global. Não, não me refiro à crise económica que começou em 2008 (…) refiro-me a uma crise que, como um cancro, passa em grande parte despercebida; uma crise que, no longo prazo, provavelmente será muito mais prejudicial para o futuro dos governos democráticos: uma crise mundial da Educação.(4)

Estas são algumas das muitas vozes que têm vindo a expressar a necessidade de mudar. Mas em que sentido tem de ser feita a mudança?

Em 1949, Aldo Leopold, fundador da Ética da Terra, dizia que: “Apesar de quase um século de propaganda, a conservação [da Natureza] ainda avança a um passo de caracol, o avanço continua quase sempre a consistir no envio de cartas timbradas bem-intencionadas e na oratória dos congressos. Isso ou então “mais Educação para a conservação (…) Ninguém o contesta, mas será verdade que é apenas a quantidade de Educação que precisa de ser aumentada? Não faltará também algo ao conteúdo?(5)

Falta, com certeza! 

Quase 150 anos depois, não estamos muito longe: papel timbrado e mais Educação ambiental. 

O Schumacher College, que nos inspira, é uma Escola onde se pode dormir na Biblioteca.

Uma Educação com foco no Ser, no Solo e na Sociedade

Precisamos de uma Educação que remeta para a descoberta, para a pessoa, que incentive a pensar e a ser, uma Educação que ensine a cuidar do Ser, mas também do Solo e da Sociedade, como defende Satish Kumar, fundador do Schumacher College e que nos apoia neste evento.

Uma Educação para a liberdade, para o pensamento crítico, para a auto-descoberta, para a ação convicta e consciente e, enquanto não nos dedicarmos a mudar, por muito que falemos, como refere Agostinho da Silva, continuamos a formatar:

“​Às vezes, ouvia contar uma história sobre umas índias na Bolívia, acho que era na Bolívia, que não gostavam do feitio da cabeça com que lhes nasciam os filhos. Então, punham-lhes umas talas, para eles terem uma cabeça “apresentável”, e só quando a cabeça se aproximava do formato de um cubo, então é que as mães bolivianas ficavam satisfeitas. Hoje, as pessoas dizem: ‘Oh!  Felizmente acabaram essas brutalidades, acabou essa porcaria toda.’ Mas na verdade não acabou, porque hoje, quando uma pessoa faz um curso e consegue alcançar o doutoramento, em geral sai de lá com a cabeça cúbica .”(6)

Da Silva, A. (2006). A última conversa Agostinho da Silva, Entrevista de Luís Machado, Prefácio de Eduardo Lourenço. Cruz Quebrada: Casa das Letras/Editorial Notícias

Fotografia de Agostinho da Silva no Montado do Freixo do Meio.

Como é que isso se faz? Podemos começar, citando mais uma vez Karen Blincoe:  

“Repensando a nossa plataforma de Educação para incluir intuição, imaginação, sabedoria, espiritualidade e holismo, bem como conhecimento básico da interdependência e interconexão de todas as coisas. Poderíamos ensinar à próxima geração de estudantes, habilidades sobre como se relacionar com outras pessoas, como fazer parte de uma comunidade, como estar além de vencer ou ser o primeiro. (2)

Blincoe, K. (2009). The Handbook of Sustainability Literacy. Re-education.

Abrir espaço na Educação para a alma, no sentido que lhe dava Rabindranath Tagore:

“A capacidade de pensar e de imaginar que nos torna humanos e que torna nossas relações humanas e ricas em vez de relações meramente utilitárias e manipuladoras (…) Ligar a pessoa com o mundo de modo rico, subtil e complexo (…) significa aproximar-se de outra pessoa como uma alma, em vez de ser como um simples instrumento.” (2)

Ensinar a viver a natureza porque “só podemos ter uma atitude ética em relação a alguma coisa que podemos ver, sentir, compreender, amar ou em que, de qualquer outra forma, possamos ter fé.” (5)

Se conseguirmos fazer essa mudança, educar promovendo o contacto com a Natureza, comunicar inspirando e promovendo o amor e ação, talvez consigamos a mudança de que precisamos. Esperemos que sim. “Seria necessário um cinismo total para se ser otimista. Esperar é diferente.” (7) 

É isso que sentimos. As nossas universidades precisam urgentemente desta mudança.

Fotografia tirada por Josh Pratt.


O que pode esperar deste encontro *Hands-on*?

Um encontro que tem como objetivo repensar a educação universitária e experimentar novas ferramentas para fazer a mudança. Um evento que é inspirado no modelo educacional do Schumacher College. Um momento experimental e experiencial onde se tem sempre espaço para um redesenho coletivo e conversas significativas que mudem o rumo dos dias, somos todos co-responsáveis pelo percurso e pelo resultado.

Decidimos nesta fase do nosso projeto focar-nos no meio universitário, seja no ensino, na investigação ou na gestão. Tendo este públicvo como ponto de partida, esta residência utiliza métodos e técnicas de facilitação que estimulem e provoquem um olhar sobre a forma como é o Ensino Universitário Português a partir de:

  • Diferentes saberes (racional, sensitivo, intuitivo, entre outros);
  • Observação e reflexão conjunta e profunda sobre as estruturas organizacionais, o percurso do estudante, a forma de aprendizagem  e o ensino na Universidade,  e o que precisa de mudança;
  •  Relação com a natureza;
  •  Estudos de caso internacionais;
  •  Uma exploração dos métodos para introdução da aprendizagem transformativa nas universidades;
  • Práticas de atenção plena (treinamento);
  • Co-criação de possibilidade e oportunidades;
  • Prototipagem de ideias e inovação

Os dias da residência incluem não só aprendizagem individual em sessões de apresentação e trabalho em grupo, mas igualmente o conhecimento tácito e compartilhado ao realizar tarefas comunitárias em conjunto (por exemplo: cozinhar, colher bolotas, limpar e arrumar a sala, etc).

Temos como fio condutor a Teoria U, desenvolvida pelo Presencing Institute, começando por ouvir-nos uns aos outros nas nossas percepções e vontades relativas ao Ensino Universitário. 

Serão abordados diversas temáticas, como por exemplo: as Universidades cuidadoras, a humanização do ensino, construir a partir do espaço interno de cada um/a, os diferentes atores do ensino, fazer entrar a Natureza na Universidade, aprender a ser comunidade. Estas e outras que vão surgir por parte dos participantes.

Este é um evento potencialmente transformador para quem participa, de onde esperamos que cada um saia com novas ferramentas e com energia para ajudar a semear a transformação nas suas organizações.

Um evento com calor acrescentado: refeições em conjunto feitas por todos, conversas à volta da fogueira, momentos de reflexão…

Dito assim, até pode assustar, é um evento que nos convida a sair da nossa zona de conforto para aprender e mudar…  prometemos uma espaço suficientemente seguro para experimentar.

Um evento que, acreditamos, muitos vão chegar ao fim a querer ficar!

Alguns depoimentos de participantes da Edição 2022:

O que gostou mais?
”Processo de ensino-aprendizagem totalmente construído com o grupo, de forma horizontal, em que todos participam e podem somar com algum conhecimento. Isso tornou o curso muito leve e enriqueceu tudo o que foi preparado pelos anfitriões. Gostei de tudo.”
“O espirito de coletividade no ensino superior.”
“A energia partilhada e as mensagens transmitidas, a começar pelos princípios de trabalho com que me identifiquei muito. As dinâmicas realizadas e conhecimento partilhado, assim como a experiência daquele espaço natural maravilhoso!”

O Programa

Organização dos dias

Dia 1 • 28 Setembro • Quinta

18h00Chegança
(chegar, conversar, café)
19h00Atividade de apresentação
20h00Jantar
21h30Círculo de abertura

Dia 2 • 29 Setembro • Sexta

07h30Despertar consciente
08h00Pequeno Almoço
09h15Preparação do dia
09h30Tarefas Comunitárias
10h20Sessões temáticas
13h00Almoço
14h30Sessões tematicas
18h30Tempo livre e
apoio à preparação do jantar
19h00Jantar
20h20Caminhada noturna
22h00Fecho do dia

Dia 3 • 30 Setembro • Sábado

07h30Despertar consciente
08h00Pequeno Almoço
09h15Preparação do dia
09h30Tarefas Comunitárias
10h20Sessões temáticas
13h00Almoço
14h30Sessões tematicas
18h30Tempo livre e
apoio à preparação do jantar
19h00Jantar
20h20Fogueira
22h00Fecho do dia

Dia 4 • 1 Outubro • Domingo

07h30Despertar consciente
08h00Pequeno Almoço
09h15Preparação do dia
09h30Tarefas Comunitária
10h20Sessões temáticas
13h00Almoço
14h30Círculo de fecho

Convidados

Neste encontro vamos contar com a participação online de dois fundadores do Schumacher College:  Stephan Harding, participação online com hipótese de colocar perguntas e Satish Kumar, reflexão gravada especialmente para o Repensar a Educação. Além disso, o educador português José Pacheco estará no encontro de forma presencial.

José Pacheco é o fundador da Escola da Ponte, uma instituição de ensino inovadora que alcançou renome e atrai visitantes de todo o mundo. Ele é um renomado educador que desenvolveu um modelo educacional baseado nos princípios de liberdade, responsabilidade e autonomia dos alunos. Sua abordagem revolucionária colocou os estudantes no centro do processo de aprendizagem, permitindo que escolhessem o que estudar e como estudar. José Pacheco vive entre Portugal e o Brasil e continua a compartilhar sua visão e experiência com educadores e estudantes, incentivando uma abordagem mais inclusiva e centrada no aluno.

Satish Kumar é co-fundador do Schumacher College e é editor emérito da revista Resurgence & Ecologist. A sua realização mais notável é a conclusão, juntamente com um companheiro, de uma caminhada pela paz de mais de 13.000 milhas em Junho de 1962 por dois anos e meio, de Nova Delhi passando pelas capitais dos primeiros países com armas nucleares do mundo, Moscovo, Paris, Londres e Washington, D.C. Ele insiste que a reverência pela Natureza deve estar no centro de todo debate político e social. 

Stephan Harding é doutor em Ecologia pela Universidade de Oxford e co-fundador do Schumacher College, onde coordenou o mestrado em Ciência Holística durante 20 anos. Trabalhou com James Lovelock, autor da Teoria de Gaia e escreveu livros emblemáticos de uma nova ciência, dentre eles Animate Earth: Science, Intuition and Gaia. Apresentou um documentário de mesmo nome. Atualmente é Fellow em Ecologia Profunda do Dartington Trust, instituição matriarca do Schumacher College.

Quem Somos

Os Anfitriões

O Local: O Montado do Freixo do Meio

É um local que nos inspira, não podíamos ter escolhido melhor local para o evento. Aliás, não é um local, é uma comunidade de projetos orientada para a sustentabilidade e que para além de nos acolher, é parceiro do nosso encontro, porque considera também que mudar a Educação é urgente e que a mudança deve ser neste sentido, do “Ser, do Solo e da Sociedade.”

Tal como descrito no seu site, a essência do Montado, a Sociedade Agrícola do Freixo do Meio promove um espaço de cooperação, de inclusão, de desenvolvimento pessoal, de trabalho e de construção de comunidade.

Procura a concretização de uma comunidade que integre harmoniosamente o ecossistema a que pertence, que seja autónoma, resiliente, pacífica e ecuménica, num assumido alinhamento com a visão do Quinto Império, de Agostinho da Silva.

A sua missão assenta na exigência, na transparência, na participação sociocrática, no conhecimento e na inovação, enriquecida pelas visões da ciência, da agroecologia, da permacultura e da soberania alimentar.

Como Participar?

Juntando-se a nós

O encontro, desenhado essencialmente para pessoas com uma ligação ao Ensino Universitário, como  professores, investigadores e outros técnicos, decorrerá entre às 18h do dia 28 de setembro e as 15h30 do dia 1 de Outubro, ficando todos os participantes hospedados e fazendo as suas refeições em conjunto no Montado do Freixo do Meio.

O evento requer no mínimo 11 participantes e é limitado a 20 participantes.

VALOR BASE

380€

Incluindo a formação, refeições e materiais, exceto acomodação à sua escolha (opções abaixo)

O Preço do evento foi pensado de forma a permitir a participação do maior número de pessoas. Ou seja, ele não reflete a totalidade dos custos de aluguer dos espaços nem de preparação das sessões. Ou seja, é um preço que reflete uma grande componente de trabalho voluntário dos anfitriões e do Montado do Freixo do Meio.

Se apesar deste preço não lhe for possível pagar e quiser muito participar, entre em contacto connosco e veremos se é possível encontrar uma solução. No mesmo sentido, se tiver oportunidade de fazer uma contribuição superior ao preço apresentado, agradecemos, porque isso nos permitirá apoiar outras participações.

OPÇÃO 1: HOSTEL

45€

por pessoa

3 noites em quarto duplo

Valor total 425€

OPÇÃO 2: HOSTEL

90€

por pessoa

3 noites em quarto individual

Valor total 470€

OPÇÃO 3: TURISMO RURAL

90€

por pessoa

3 noites em quarto duplo

Nesta versão, os quartos são duplos (cama de casal ou duas camas de solteiro), muito confortáveis, com casa de banho privativa. O valor é 30€ por pessoa por noite, ou seja, 90€ para as três noites do evento.

Valor total 470€

OPÇÃO 4: QUARTOS INDIVIDUAIS

TURISMO RURAL

Disponíveis

sob consulta e conforme disponibilidade

Inscrições

A inscrição deverá ser feita até 10 de Setembro de 2023 e será confirmada com o envio do comprovativo de pagamento.

O pagamento deve ser feito no ato da inscrição para o IBAN da FUTURISTA.ORG:

PT50 0045 9060 4033 3923 1938 3

Caso até 14 de Setembro de 2023 não seja atingido o número mínimo de participantes, será devolvido o valor total da inscrição e do alojamento pago. Não nos responsabilizamos por demais despesas feitas no âmbito do evento como transportes.

Resultados da Primeira Edição em 2022

Parceiros

Agradecimentos

À Tatiana Zanghi pelo material fotográfico, por nos acompanhar na visita e pela generosidade em nos ajudar, o nosso muito obrigad@!

À Cláudia Alves por nos doar muitas horas do seu tempo para fazer o cartaz, o site, as imagens para os diferentes suportes, o nosso muito obrigad@!